CAPOEIRA: PATRIMÔNIO CULTURAL
Ao longo dos anos, as discussões sobre a origem da capoeira vêm suscitando o interesse de muitos estudiosos e praticantes. Os registros históricos apontam a sua presença em vários ambientes desde o período colonial (Recife, Rio de Janeiro e São Paulo); no entanto - segundo alguns estudiosos - foi na Bahia onde nasceu e vêm ocorrendo a sua preservação e inovação, a partir dos estilos denominados Angola e Regional.
No período da escravidão, os negros de mesma etnia eram mantidos separados, em propriedades distantes entre si para não acirrarem possíveis contendas trazidas da África, ou para impedir a formação de redes de solidariedade. No entanto, em cativeiro as várias etnias agrupadas, perceberam aspectos culturais comuns e criaram novos laços e se tornaram parceiras para uma vida afetiva, promovendo o redimensionamento das fronteiras étnicas, das nações africanas.
A religiosidade e a capoeira atuaram como elementos agregadores entre as etnias e ponte para a interação e reordenamento cultural. Daí ter sido constituído esse caldeirão cuja síntese pode ser identificada na mais africana das cidades localizadas fora do continente negro, Salvador, na Bahia, onde a religião de matriz africana e a capoeira estão presentes em todos os seus ambientes.
Ambas apresentam um caráter de liberdade, mesmo que a religião seja vista como hermética e com alguns tabus, a capoeira é expansiva, faz o contraponto, assinalando a brincadeira, o jogo lúdico e alegre; a capoeira, sendo aberta, de fácil acesso, vem ao longo dos anos despertando o interesse como valor cultural de arte e luta, estilo e filosofia de vida, tanto em âmbito local, quanto nacional e internacional.
A dimensão da capoeira na Bahia, e, mais especificamente na região do Recôncavo, se confunde com os afazeres cotidianos entre jovens de faixas etárias variadas, de ambos os sexos e a sua prática vem ganhando espaço, como numa espécie de busca da identidade perdida e reconstrução de um passado mítico, a origem ancestral na África.
Se a Bahia foi, e continua sendo, o centro de preservação da capoeira, graças ao trabalho incansável de vários mestres – como Pastinha, Bimba, João Pequeno, João Grande, e tantos outros –, tem atuado também como o eixo difusor, exportando as rodas de capoeira para os quatro cantos do planeta, disseminando os princípios de liberdade e respeito à diversidade que a capoeira encerra.
As discussões sobre a origem não se constituem no ponto principal; os estudos agora se dedicam em avaliar a abrangência territorial e o impacto da interação cultural com outros povos.
Frequentemente desembarcam em Salvador grupos oriundos de diversos locais para os encontros no histórico Forte de Santo Antonio Além do Carmo, hoje “Forte da Capoeira”, para aprimorarem as técnicas, encontrarem os verdadeiros mestres da capoeira, mantendo-se viva como memória coletiva de um povo e patrimônio cultural da humanidade. |